Lançamento do Livro do Prof. João da Cruz - Metáforas Íntimas

Lançamento do Livro Metáforas íntimas: alegorias de um caminho idiossincrático - 23/04/21 - 17hs

A obra, do professor e pesquisador João da Cruz Gonçalves Neto, será lançada virtualmente às 17 hs no Canal Pensar Direitos Humanos, no Youtube. Participe!

Livro: GONÇALVES NETO, JOÃO DA CRUZ DA CRUZ. Metáforas íntimas: alegorias de um caminho idiossincrático. Curitiba: Kotter editorial, 2021.

Lançamento virtual: dia 23 de abril de 2021

Horário: 17 hs

Onde: Canal Pensar Direitos Humanos, no Youtube

Venda: Livraria Palavrear e sítio da editora Kötter

obs: Pode ser adquirido na Livraria Palavrear, autografado. É só deixar o nome com Natália que eu passo por lá e o autografo.(João da Cruz). Whatsapp da Palavrear: 62 8249-0022

Lançamento do Livro do Prof. João da Cruz - Metáforas Íntimas

Sobre o livro

  • É um ensaio nem acadêmico, nem literário. Tenho chamado de literatura especulativa.
  • Pretende fazer junto ao leitor um passeio de reconhecimento de nossa realidade atual a partir de uma consciência comum forjada pelo individualismo liberal, produtor de características psíquicas próprias, como a inflação subjetivista derivada de uma pretensa autonomia frente ao quadro social. Essa é a idiossincrasia, característica central de nossas sociedades ocidentais, em seu ideal atomizante, mas conflitante com um ainda remanescente desejo de vínculo social orgânico.
  • Esse passeio pretende partir do lugar onde estamos, e busca um mapeamento cognitivo, ainda que precário, do mundo tal como o podemos ver, e em caráter preliminar, introdutório.
  • Não creio que haja uma novidade teórica, mas apenas no sentido do renovado esforço do recomeço, do partir de mim mesmo. É um ímpeto cartesiano ou socrático, sem a pretensão da indevida comparação.
  • O título: alegorias de um caminho idiossincrático. Fiquei em dúvida em colocar “para”, ao invés de “de”. Com “para” pareceria uma recomendação de auto ajuda, e sem o artigo “um” pareceria pretender ser um caminho metodológico ingênuo ao ser taxativo sobre “o” caminho.
  • Então, nós, pessoas comuns, situados em meio à insegurança e “liquidez” do mundo, sem as certezas dogmáticas e sem a segurança de um método que conduza a um solo seguro ou à verdade, como poderíamos caminhar compartilhadamente assim mesmo com alguma segurança? É essa a pergunta que motiva o ensaio.

Sobre as metáforas

  • Assim, com o auxílio de algumas alegorias metafóricas, pretendemos nos lançar ao reconhecimento de onde estamos.
  • As metáforas seriam íntimas por serem compartilhadas por nós na própria estrutura do pensamento. Elas não são apenas recursos estilísticos, mas estrururam propriamente a linguagem e o pensamento. Lakoff e Johsonn.
  • Claro, elas podem ser usadas para ilustrar, incorporar ideias e experiências opostas. Mesmo sendo íntimas no sentido estrutural, não seriam referências comuns e necessárias a todos os pontos de partida. Elas podem encontrar sentidos diferentes em caminhos diferentes.

Agradecimentos

  •  Ao Canal Pensar Direitos Humanos, na pessoa do prof. Magno Medeiros, e a todos colaboradores do Canal...
  • Ao professor Eduardo Sugizaki, professor de filosofia na PUCGO, que me acompanha e apoia há 20 anos.
  • Ao Matheus de Souza Almeida, pela revisão do original.
  • Às artistas Rejane Alves de Macedo Cabral, Brenda Sampaio de Oliveira e Lara Dias Coelho. Agradeço a paciência, a boa vontade e a persistência, que em meio a tanta incerteza sobre o que eu buscava, conseguiram realizar essas obras de arte que estão no livro. Sem essas artistas, muito da força discursiva seria perdida.
  • Agradeço à Livraria Palavrear, nas pessoas de Wilson Rocha e Natália, pelo apoio irrestrito ao projeto desde a indicação de editores à abertura do espaço para o lançamento. Eu, que sonhei em fazer um lançamento na livraria para reunir os amigos num lugar que amo, mas que a pandemia não permitiu.

 

João da Cruz - Autor do livro

Entrevista de João da Cruz da Cruz Gonçalves Neto sobre seu livro “GONÇALVES NETO, JOÃO DA CRUZ DA CRUZ. Metáforas íntimas: alegorias de um caminho idiossincrático. Curitiba: Kotter editorial, 2021”, concedida ao prof. Dr. Eduardo Sugizaki, pesquisador do departamento de Filosofia e da pós-graduação em História da PUCGO.

Sugizaki: Gostaria primeiramente de apresentar o seu livro ao possível leitor. Do que se trata a obra? Qual o seu leitor ideal?

João da Cruz: Essa obra é um ensaio livre, que eu situaria entre a filosofia e a literatura. Tenho chamado de literatura especulativa. Não é, assim, um livro acadêmico, voltado aos debates exegéticos da universidade. O texto buscar acompanhar um leitor razoavelmente instruído, mas não necessariamente erudito ou especialista, em um passeio exploratório por nossa realidade atual com o auxílio de algumas alegorias. Partindo do pressuposto de que em uma sociedade individualista atual uma das grandes causas de sofrimento psíquico é o não reconhecimento de uma comunidade e mesmo de uma realidade compreensível e compartilhada a não ser pelo dogmatismo (daí a ideia de idiossincrasia, o indivíduo vivendo pseudamente fora de seu contexto), busca-se esse reconhecimento não pelo conhecimento científico ou filosófico disponível na história das ideias do ocidente, mas pelas alegorias, metáforas possíveis que podem ser compartilhadas por nós, o autor e o leitor. O leitor ideal, assim, é apenas aquele que por curiosidade busca um “pé de apoio”, um solo epistêmico num mundo de incertezas, de fluidez, que sem se condicionar ao simples dogmatismo (a crença não justificada em algumas coisas para o conforto e segurança psíquicas), tampouco se rende à angustiante incerteza encontrada nos infindáveis (e importantes) debates especializados e fragmentados da academia.

Sugizaki: Haveria, então, alguma originalidade nesta tentativa de ajudar no esforço de reconhecimento do mundo, que é feito por nossa tradição de pensamento?

João da Cruz: Seria uma pretensão ingênua dizer que há uma originalidade do que seria o conteúdo e o método do que se reconhece, mas há um esforço sempre renovado de preparação ao ingresso no mundo reflexivo a partir do lugar onde estamos, a partir dos instrumentos dos quais dispomos medianamente. Pensar muito, ou ser um erudito, significa às vezes não ser mais que um especialista (o que é muito!), ser um tecnólogo conceitual, cuja habilidade pode se desenvolver num quadro psíquico muito estreito. Este ensaio, assim, propõe uma forma reflexiva que pretende partir de onde estamos, no interior dos hábitos reflexivos mais ou menos compartilhados, para tentar reconhecer seus limites, como se fosse uma obra de “pré-metodologia”, um passo, portanto, antes do ingresso ao estudo da ciência e da filosofia. Aliás, o primeiro nome dado ao ensaio foi “considerações pré-metodológicas”. Sendo apenas uma narrativa possível, um caminho um tanto livre e artístico, não pretende ser um método, ou uma fórmula, ao pensar. Poderíamos dizer que o ensaio aspirou a ser uma “introdução ao mundo”, ao “quadro que nos forma”, mas no sentido do senso comum para a filosofia, e não o inverso, usando-se das metáforas como alegorias de formas de apreensão e reconhecimento.

Sugizaki: E o que seriam essas metáforas íntimas?

João da Cruz: Na história do pensamento abstrato, tanto ocidental como oriental, o recurso às metáforas é bastante comum e isso não é casual. Muito mais que apenas um recurso estilístico ou poético, “dizer uma coisa por outra”, as metáforas são constitutivas de nossa própria linguagem. São, no dizer de Lakoff e Johnson, fundamentais “no nosso sistema conceitual e, sem elas, não poderíamos viver no mundo que nos cerca: não poderíamos raciocinar nem nos comunicar”. É nessa estruturação do mundo possível como metáfora onde reside a intimidade que não é só minha, mas de todos, e que estrutura o nosso pensamento. A busca de uma experiência por meio de aproximações físicas ou emocionais pode assim fornecer atalhos ou balizas ao saber, podendo mitigar o nosso sofrimento por não reconhecimento, ou por confusão, próprios de uma cultura neoliberal-conservadora.

Sugizaki: Explique melhor esse sofrimento por confusão.

João da Cruz: Em nossa cultura liberal, é muito próximo do que entendemos por liberdade individual. A esfera de ação e compreensão do indivíduo, apresentada gloriosamente como o espaço da não interferência da sociedade que se vê como um universo em expansão, indefinida e desprovida de fins políticos, ou seja, comuns, engendra nas pessoas uma confusão mental apenas aplacável por autosugestionamento e pela redução da vida a uma espécie de jogo, como o econômico. Sem situar-se nos espaços comuns e fins comuns, o indivíduo tende a inflar a própria subjetividade, a confundir instâncias objetivas e subjetivas, a dispender a energia que moverá a história feita de confusão. Esses são alguns modos de confusão psíquica mais comuns: dificilmente sei o quanto depende de minha vontade e o quanto depende de fatores alheios a ela; temos dificuldade em reconhecer o que é próprio do indivíduo e o que é próprio da sociedade; não sei qual o meu endereço existencial por não possuir um mapeamento cognitivo, ainda que provisório; não reconhecemos o que é próprio da existência e o que é próprio da vida social; não sabemos qual a relação apropriada entre a nossa escala valorativa e as coisas que lhes correspondem, entre outras.

Sugizaki: Desde antes da sua tese doutoral, agora publicada sob o título “A sabedoria política: Por uma teoria normativa do conhecimento pública em John Rawls”, você falava do seu projeto de constituir uma metodologia ou epistemologia do pensar e do agir políticos. Ao escrever a tese, você procurou derivar da obra de Rawls elementos para esse projeto, rejeitando de maneira consciente restringir-se ao projeto da análise conceitual do autor e da obra, típico na história da filosofia. Ao ler o seu novo livro, “Metáforas íntimas: alegorias de um caminho idiossincrático”, percebi que você deu um novo passo além, ao que me parece, na direção de seu próprio projeto. Você constituiu um mapa de orientação filosófico-político para o grande público. Não sei se você concorda com minha leitura. Se ela estiver correta, quais são as linhas de relacionamento entre as duas obras? Em que sentido a segunda não só se alimenta da primeira, mas a ultrapassa, fazendo-se um pensador autônomo de Rawls?

João da Cruz: O interesse comum entre as duas obras, expandida e objetivada nesta última, foi a retratar a experiência do indivíduo a partir de sua vivência concreta atual, não conscientemente vinculada a alguma chave teórico-conceitual. Daí se constituir de algumas observações chamadas de pré-metodológicas. Foi um exercício macunaímico, antropofágico, de esvaziamento, de apropriação do que da reflexão tornou-se vivência comum para a partir dela poder lançar-se a elaborações mais ambiciosas, mas então a partir do solo que achamos que pisamos. Se naquela obra houve a pretensão de identificar os elementos de uma possível cognição coletiva e sua expressão institucional que ultrapassasse o sujeito epistêmico, aqui procurou-se apenas o testemunho deste sujeito epistêmico em sua necessidade de uma localização existencial, de um mapeamento cognitivo, oferecendo um caminho especulativo entre o dogmatismo autoreforçado e a sabedoria excepcional. Por simples incapacidade, ou pela busca de uma autenticidade confusa, ou por não conceber o conhecimento como patrimônio, jamais me familiarizei com a academia. Busco um pensamento, por mais tímido que seja, que venha do esvaziamento. Foi para isso que comecei a estudar filosofia, e só isso. Não foi, jamais, para ser um doutor em algum aspecto da obra de John Rawls.

Sugizaki: Antes da publicação desse último livro, Metáforas íntimas, alguns dos seus artigos, como O poder do caos, A política como lugar comum, O liberalismo como sabedoria política, e o livro O direito a partir do cinema: o burro de Nietzsche e outros textos, parecem muito ligados a essa dimensão do ensino, da formação política, que parece ser o projeto que unifica e articula a sua trajetória intelectual. O seu livro de reflexões sobre produções cinematográficas foi o resultado de um projeto de extensão, em que você usava filmes para a formação política da juventude. Você concordaria comigo se eu fizesse do empenho de Sócrates na formação política de Alcebíades por Sócrates como uma boa metáfora da sua inteira trajetória como ser humano, professor e pesquisador?

João da Cruz: Nós, professores de filosofia, dificilmente desligaríamos o mister de ensinar do viver e praticar, do separar o trabalho de nossas vidas concretas, como se este fosse apenas um afazer. Jamais conheci um professor de filosofia que não fizesse de sua vida uma espécie de sacerdócio leigo, que não fizesse de seu trabalho uma experiência radical, de imersão completa, de entrega para além das expectativas, com frequência muito frustrantes. Por outro lado, a abertura cognitiva e experiencial propiciada pelo estudo da filosofia seguramente projetará a mente curiosa a um vasto campo aberto, com promessas indefinidas e incompletude, campo fértil para a recriação de si mesmo, mas também para a confusão cognitiva. Apegar-se, assim, a estudos exegéticos como uma baliza na escuridão do conhecimento é necessário profissionalmente, é importante socialmente, mas não faz guardar uma especificidade no mister de orientar com a vida. O esforço socrático de incitar a viver reflexivamente nos orienta a todos como professores de filosofia, não recusando os eminentemente técnicos, mas seguramente conclamando sempre à curiosidade e ao risco da exploração intelectual sem peias.